
| Crítica Negativa |
| Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (Harry Potter and the Prisoner of Azkaban, EUA, Inglaterra, 2004) |
| Por: Marcos Petrucelli |
Antes de mais nada, ''Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban'' é um bom filme. Ok, é muito bom, já que é preciso comparar com os dois primeiros filmes da série - ''Harry Potter e a Pedra Filosofal'' e ''Harry Potter e a Câmara Secreta''. E nessa comparação, ''Azkaban'' é superior aos antecessores. É fato que a direção de Alfonso Cuarón contribuiu e muito. O jovem cineasta mexicano ganhou reputação a partir do ousado e intenso ''E Sua Mãe Também'', mas antes já havia demonstado todo seu requinte no belo ''Grandes Esperanças'', estrelado por Gwyneth Paltrow.
Quem conhece esses trabalhos de Cuarón sabe, portanto, que seu estilo é bem diferente do de Chris Columbus, que assinou os dois primeiros filmes de Potter. Columbus é um ótimo diretor, não há dúvida. Mas parece ter mais afinidade com um público mais infantil. E não era essa a proposta de ''Azkaban''.
Nesse terceiro ''Harry Potter'', visivelmente mais sombrio tanto visual quanto dramaticamente, o diretor Cuarón aproveitou que os personagens estão mais velhos, assim como as próprias crianças do elenco também cresceram. Cuarón notadamente exigiu mais deles e por isso é evidente a melhor performance de Daniel Radcliffe (Harry), Rupert Grint (Ron Weasley) e Emma Watson (Hermione).
Aliás, Hermione é indiscutivelmente a melhor personagem - não só desse ''Azkaban'', mas de toda a série. Comparada a Harry Potter, que é um garoto problemático e traumatizado (ainda que justificável, já que os pais foram assassinados), Hermione é inteligente, sensata, atirada. E fica ainda melhor por causa de Emma Watson, que é realmente uma graça de menina e sabe interpretar. Espero mesmo que sua imagem não fique desgastada com tantos filmes de ''Harry Potter'' e fico torcendo para vê-la em breve num projeto que lhe permita mostar o verdadeiro talento. Não duvido que Cuarón já esteja de olho na menina.
O que mais interessa na história de ''Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban'' é percebermos que aqui começa a se definir o destino de Potter. É sabido - ou especula-se - que o jovem bruxo não terá um final feliz ao final do sétimo livro da autora J.K. Rowling. Em outras palavras, ele deve morrer mesmo. Daniel Radcliffe, inclusive, recentemente deu uma entrevista em Londres e comentou justamente isso. Em ''Azkaban'' o discurso é mais explícito: Potter não só tem vários inimigos, sendo Voldemort o mais perigoso, mas sabe-se que todos querem de fato matá-lo.
Aqui o perigo iminente é Sirius Black (Gary Oldman, como sempre sensacional), justamente o prisioneiro de Azkaban a que o título se refere. Sirius fugiu da prisão e está indo em direção à escola de Hogwarts. Obviamente todos estão assustados, mas o medo se intensifica na medida em que o próprio Dumbledore (Michael Gambon, que substituiu Richard Harris) se encarrega de dar a notícia e ainda comunica que a escola está sendo protegida por certos seres temíveis chamados de Dementadores, que são os guardas de Azkaban e capazes de sugar a alma das vítimas. Logo percebe-se que esses monstros fantasmagóricos exercem grande força e poder sobre Potter.
Mas o que realmente deixa o jovem Harry preocupado é ter conhecimento de que Sirius está no seu encalço. Surge ainda a descoberta de uma lenda dando conta de que foi o próprio Sirius o responsável por ter levado Voldemort para assassinar os pais de Harry.
Para quem leu o livro, sabe que toda a história gira em torno desse drama. Harry precisa evitar o contato com Sirius e, mais ainda, com os Dementadores. Para isso conta com a ajuda do professor Lupin (ótima presença de David Thewlis), que ensina a Harry uma nova magia.
''Azkaban'' é, portanto, uma ótima aventura. Cuarón consegue extrair o melhor de seu elenco, mas principalmente demonstra um brilhante cuidado estético ao lidar com tantos detalhes e elementos - aliás, um trabalho impecável na direção de arte.
Porém, mais um vez fica igualmente evidente a supremacia da autora Rowling e sua interferência no roteiro. Metódica e detalhista, ela não quer deixar fora do filme quase nada que escreveu no livro. Daí resulta uma projeção que ultrapassa as duas horas. A duração não seria nenhum problema, mas é inegável que os últimos 30 ou 40 minutos chegam a ser cansativos. É nesse momento que a história mostra Harry e Hermione voltando no tempo para corrigir alguns equívocos (um deles relacionados a Sirius Black, que será a surpresa para quem não leu o livro). Ocorre que essa suposta cartada de genialidade da escritora se mostra totalmente indispensável. Nenhuma grande revelação é feita e sobra apenas a curiosidade de se ver novamente as mesmas sequências, só que agora a partir de um outro ponto de vista - coisa muitas vezes já vista, inclusive com mais eficácia em ''De Volta para o Futuro''.
Ainda assim, o diretor Alfonso Cuarón mostra
ao máximo sua inventividade. Por sorte,
pôde contar com a montagem habilidosa de
Steven Weisberg, antigo companheiro de Cuarón
em ''Grandes Esperanças''. ''Azkaban'' está longe
ser uma obra-prima, mas é certamente o melhor
''Harry Potter'' até agora.
|
||||||||||||||||||||