
| Crítica Negativa |
| O Alfaiate do Panamá |
| Por: Eduardo Valente |
Farsa. Esta palavra serve para se entender tudo sobre este filme. Talvez não ela sozinha, mas principalmente. A grande sacada de Boorman, que fora qualquer outra coisa tem um domínio narrativo completo, é a de levar sua farsa a sério até um certo ponto. Este golpe pega o espectador de calças curtas, porque ele até tenta levar o filme a sério, tenta acompanhar sua trama como algo de relevante, algo de construtivo. Não trata-se, portanto, de uma paródia, como alguns poderiam pensar, e sim de uma farsa, literalmente. Um exemplo são as interpretações de Pierce Brosnan e Geoffrey Rush, que num primeiro momento parecem construir personagens críveis, sérios, mas ao longo da narrativa vão se mostrando cada vez mais irreais, exagerados. Assim como a trama, que começa direta, mas vai ficando a cada momento mais e mais intrincada, atingindo proporções completamente inesperadas.
Mas, o que talvez fique escondido da maioria dos
espectadores é um subtexto interessantíssimo
e político que o filme oculta. Assim como
nós enquanto espectadores gostamos de acreditar
nos maiores absurdos que o cinema nos conta porque
acreditar neles mesmo os sabendo mentirosos é o
que nos faz acompanhar a trama, o filme indica
que os que detêm o poder também gostam
de acreditar nas enroladíssimas teias de
mentiras que contam, mesmo sabendo que elas assim
o são, porque são elas que tornam
possível eles se perpetuarem no poder, e
ganharem muito dinheiro com isso. O personagem
de Rush entra nessa então como um pobre
membro do povo, despreparado para o jogo de cachorro
grande com que vai se envolver. Ele não
possui a sofisticação necessária
aos grandes mentirosos, trata-se de um mentirosinho.
Por isso, principalmente ele sofrerá as
consequências dos seus atos. É este
comentário que justifica o filme todo, que
de resto parece ter sido divertidíssimo
de fazer, de assistir, e até faz com que
passemos por cima de uns bons vinte minutos lá pela
sua metade onde tudo parece parar de evoluir.
|
||||||||||||||||||||